Sem medo de investir em meio à pandemia em Niterói

Apesar da crise e do quebra-quebra, há empresários que expandem negócios na cidade Por Carolina Ribeiro e Gabriella Balestrero Plaza Shopping Niterói vai abrir novas lojas no segundo semestre. Foto: Divulgação Em meio à pandemia de Covid-19, que além de matar quase 100 mil pessoas no Brasil também quebrou inúmeros negócios e destruiu empregos, há empresários que, na contramão da crise, estão investindo em Niterói. Só no Plaza Shopping, no Centro, maior shopping da cidade, serão inauguradas três novidades de grande porte neste segundo semestre: a primeira loja da esportiva Decathlon, a chegada da japonesa Daiso no Rio, com a primeira loja em Niterói, e a expansão da pizzaria Mamma Jamma. - As lojas de artigos para o lar, eletroeletrônicos e telefonia já vêm identificando um crescimento [de venda] significativo, comparado ao mesmo período do ano passado. O fluxo está voltando gradativamente, mas nossa preocupação ainda é com a saúde de visitantes e funcionários, e passar segurança para o consumidor - diz Rafael Montenegro, Superintendente do Plaza Shopping. Mamma Jamma, no Jardim Icaraí. Foto: Divulgação/Luciano Mendes A Mamma Jamma iniciou as atividades no Jardim Icaraí em abril de 2019. Exatamente um ano depois, previa inaugurar a segunda unidade em Niterói, desta vez no Centro. Mas os planos foram atrasados devido à pandemia. A abertura do novo espaço está adiada para setembro, já que as obras foram interrompidas e só retornaram em julho. - Já sabíamos que diversos clientes de Niterói frequentavam a nossa filial do Jardim Botânico, mas a recepção foi muito melhor do que podíamos esperar. Nos dois primeiros meses as filas eram frequentes, tanto que passamos a abrir as portas uma hora mais cedo - relembra o sócio Marcello Poltronieri. Marcello Poltronieri é um dos sócios do Mamma Jamma Foto: Divulgação/Luciano Mendes Com a nova unidade, o serviço de delivery será expandido para além da Zona Sul, e o horário de atendimento também será ampliado. No Jardim Icaraí, a pizzaria funciona a partir das 17h, mas no Plaza vai abrir para almoço com pizzas e um menu de pratos especiais. A unidade será adequada às regras de distanciamento, com investimentos em equipamento de proteção, e nem esta nova realidade parece assustar os sócios. Se eles pensam em continuar investindo em Niterói, como na Região Oceânica, por exemplo? - Quem sabe num futuro próximo? - observa Marcello. Mas os investimentos na cidade não são todos de fora. Gente de Niterói também confia e investe em Niterói. Um dos mais tradicionais restaurantes de comida italiana da cidade, a Gruta de Capri fechou as portas no fim do ano passado por discordância sobre o valor do aluguel do imóvel em Icaraí, mas a receita da primeira pizza da cidade não foi esquecida. Bisneto de Arturo Bonelli, que apresentou a iguaria italiana aos niteroienses em 1953, Pedro Bonelli abriu com sócios a Grutinha Pizzaria Delivery e Take Away, em Charitas. A pizza da Grutinha, que abriu com delivery e take away, em Charitas. Foto: Divulgação/Rafael Pinheiro - Sempre tive a vontade de reviver a história em torno da primeira pizza da cidade, mas não queria um restaurante convencional por uma série de fatores, principalmente em meio à pandemia. Vimos um nicho na área de delivery, já que o comportamento de consumo mudou - comentou. Bonelli toca o novo estabelecimento ao lado dos sócios Guilherme Peixoto, que também é da área de eventos, e Henrique Laia Franco, que se somou ao grupo com expertise no comércio. - Niterói é nossa cidade natal e enxergamos um potencial enorme na cidade. A nossa receita de pizza se mistura com a história do município, não poderia ter outro endereço para começar esse novo negócio - enfatiza. Os novos empreendimentos estão por todos os lados e para todos os gostos. Ainda no setor de comida, o badalado restaurante japonês Manekineko atravessou a ponte e chegou a Niterói em julho. Por enquanto, atenderá em Icaraí apenas no sistema de delivery e para jantar. Fábrica da Malteca abriu em plena pandemia, em Jurujuba Provando ter uma vocação muito forte para a criação, produção e consumo da cerveja artesanal, sobrou espaço até para o início de uma nova fábrica durante a pandemia. A Malteca iniciou sua produção há cerca de um mês em um galpão de Jurujuba, e a marca já está na rua. A nova cervejaria tem capacidade de produção de 18 mil litros. São cinco tanques de 2 mil litros e outro de um mil. - Vimos que quem desejava iniciar sua produção não estava encontrando espaço no Rio porque as fábricas estavam ocupadas. A maioria tinha que fazer cerveja fora do estado. Decidimos investir para ter a nossa marca, mas também produzir para terceiros - contou Diego Verticchio, dono da marca junto com a mulher, Taiana Ferreira. A cidade já conta com, pelo menos, outras três fábricas: Noi, Máfia e a Masterpiece, que ia ser inaugurada na semana anterior ao início da quarentena. Abriu as portas, com barzinho, também em julho. Devido ao mercado aquecido, Niterói foi a primeira cidade do Rio a criar uma lei para reconhecer e valorizar a fabricação de cerveja artesanal, o selo Niterói Cervejeiro. A Região Oceânica também está ganhando novidades. A tradicional loja Cláudia Perfumaria, há mais de 50 anos no Centro, está expandindo os negócios para Piratininga. A inauguração é neste sábado, a partir de 8h30m. O estabelecimento vai funcionar de segunda a sábado e também por delivery, na Estrada Francisco da Cruz Nunes 6003. Mercado Municipal é a grande expectativa de comerciantes e empresários Mercado Municipal Os olhos estão mesmo voltados para os grandes projetos da cidade. E a expectativa é grande sobre o Mercado Municipal, que está sendo revitalizado pela Prefeitura com a promessa de inaugurar ainda em novembro. Serão 180 lojas de produtos orgânicos e especiarias, além de restaurantes e cervejarias artesanais no Centro, bem coladinho com a Ponte Rio-Niterói. O projeto acontece no mesmo prédio do antigo mercado, na Avenida Feliciano Sodré, inspirado nos grandes mercados municipais ao redor do mundo, um ponto cheio para o turismo. Fruto de uma Parceria Público-Privada (PPP), o plano será apresentado a empresários e comerciantes no dia 10 de agosto, quando darão início às negociações. - Sempre viajei muito e o meu ponto turístico é o Mercado Municipal das outras cidades e países. É o que faltava em Niterói, acredito que os restaurantes tradicionais vão querer estar lá com uma proposta diferenciada. Vou participar da reunião em agosto para conhecer o projeto, pois também estou querendo entrar no mercado - confidenciou o chef Vicente Maia, que assumiu recentemente o restaurante da Padaria e Confeitaria Beira-Mar, em Icaraí. Outro que está esperando o projeto é o empresário e presidente do Polo Gastronômico do Jardim Icaraí, Beto Caveari. Ele já é sócio e proprietário dos estabelecimentos Boteco Confraria, Salve Simpatia, Salve Simpatia Porto (em Portugal), Armazém São Jorge e Risoteria Caveari, além do Food Truck Ossos Carnes e Burger. - A ideia parece ser bem interessante, funciona em muitas cidades do mundo inteiro e tem tudo para funcionar em Niterói também. Vai depender da empresa que ganhou a concessão, se vai ter um bom diálogo com os empresários da cidade para levar todos nós para lá, que eu acho ser a vontade de todos - resumiu ao A Seguir: Niterói. Outros setores A prefeitura lançou um plano de retomada econômica que inclui, além da revitalização do Mercado Municipal, outros quatro pilares: empréstimo às empresas da cidade, obras de melhorias em comunidades em conjunto com o setor da construção civil, incentivo à inovação e tecnologia e, por fim, a dragagem do Canal de São Lourenço. A iniciativa vai aumentar o calado do canal e permitir o acesso de grandes navios ao Porto, incentivar a indústria naval e o Terminal Pesqueiro, no Barreto, que nunca funcionou pela dificuldade de acesso das embarcações. Luiz Césio Caetano, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), acompanha de perto essas novidades, na espera da retomada de empresas e empregos para a cidade. - Niterói tem o programa PoloMar para revitalizar a Frente Marítima de Niterói. Um dos pontos importantes é a dragagem do Canal de São Lourenço, porque o assoreamento do canal limita a operação do porto, dos estaleiros, reparo naval, pesca. A revitalização também desenvolve uma cadeia de valor no fornecimento de serviços e produtos para essa indústria - disse. Caetano ressalta também que Niterói tem atrativos para o investimento de empresas e indústrias devido a localização, bons níveis sociais e econômicos e educação privilegiada. Entre os setores que ele identifica como fortes na cidade, além do setor naval e pesqueiro, estão a área de tecnologia da informação e a construção civil. Vicente Maciel, diretor da Fernandes Maciel Construtora, reforça a grande expectativa da retomada da construção civil para 2021. Atualmente a cidade dispõe de cerca de 400 unidades novas em estoque, número considerado baixo para Niterói. - Tão logo passe a pandemia, vamos dobrar ou até triplicar a quantidade de investimentos em Niterói. O setor chegou a quase parar antes da pandemia, mas temos potencial sim. Os estoques estão baixos, Niterói tem uma qualidade de vida e de gestão boa que esperamos que continue - reforçou. E se a pandemia do coronavírus é um fator de incerteza para muitos negócios, para o setor imobiliário foi o que aqueceu as vendas. Bruno Serpa Pinto, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) de Niterói e CEO da Spin Inovações Imobiliárias, diz que a pandemia fez as pessoas repensarem moradia. Isso porque ficaram mais de quatro meses em casas e apartamentos que não supriam as necessidades. Junho foi o segundo melhor mês de negociações do setor em alguns anos e julho deve ser o terceiro. - Num primeiro momento, de choque, o confinamento fez com que as pessoas reavaliassem a questão moradia. Porque o normal antes era passar o dia inteiro na rua trabalhando e ir em casa para dormir. A pessoa não morava em casa. E hoje se readaptaram para morar em casa e, inclusive, trabalhar em casa - explicou. Na última quarta-feira (29), o Prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, se reuniu por videoconferência com uma comissão da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Brasil) e do Consulado dos Estados Unidos da América no Rio. O encontro é um esforço da Prefeitura para buscar novas parcerias para a cidade, podendo atrair os olhos de mais de cinco mil empresas filiadas à Amcham. Segundo o vice-presidente do Conselho Regional, Julian Chediak, Niterói se destaca pela equilibrada gestão fiscal. Praia de Icaraí. Foto: Reprodução Quando o assunto é atração de novos negócios, nem todos os especialistas têm a mesma opinião. O Sindilojas de Niterói, por exemplo, crê que o Plano de Retomada proposto pela prefeitura não atende às necessidades econômicas da cidade e avalia que o interesse para investimentos advém de um “elevado poder aquisitivo” da população e dos proventos recebidos do royalties de petróleo. Alguns dos novos empreendimentos já eram esperados antes da pandemia o que, para a instituição, é indicativo de que não há tanto interesse para aportar na cidade em período pós-pandêmico. O Sindilojas ainda critica as diretrizes do programa Supera Mais, que não chegará a contemplar 30% dos inscritos, segundo o órgão, o que não só desestimula a criação de novos empreendimentos como também prejudica os que já existem. A organização estima que 15% dos estabelecimentos comerciais da cidade fecharam as portas, em sua grande maioria sem condições de reabrir. Carlos Cova, economista e doutor em Engenharia de Produção pela Coppe e CEO da Aleph Educacional, tem uma visão mais moderada. Para ele, o momento ainda é de muita incerteza, visto que não existem experiências prévias de como promover a preservação de vidas sem que haja complicações econômicas. Ainda assim, o economista vê com bons olhos os esforços municipais para reverter a crise econômica. - Não foi um evento adstrito a Niterói. Várias cadeias produtivas foram prejudicadas, no mundo todo. Muitos modelos de negócio se tornaram inviáveis na pandemia. Quem sobreviver economicamente a este evento certamente será mais resiliente e com maior capacidade de gerenciamento de crises. Não existem receitas nem atalhos, avalia. Ele acredita que as medidas combinadas podem funcionar como um forte impulsionador da economia do município, atuando na geração de emprego, na eficiência do uso de recursos e na geração de cadeias produtivas que movimentam o mercado municipal. O presidente em exercício da Câmara de Dirigentes Lojistas de Niterói (CDL), Manoel Alves Jr, vê no Triple A, avaliado pela agência de risco Standard and Poor’s, um forte indicativo para o interesse em investir na cidade. A nota é a mais alta no ranking da instituição norte-americana. O Brasil é avaliado no ranking global como BB-. Os programas sociais criados pela Prefeitura para vários segmentos da população também são fortes impulsionadores de demanda e aquecimento do mercado, segundo ele, o que refletiria no crescimento da oferta, com o crescimento do fator oportunidade para empreendedores.

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