Shoppings reabrem pela metade e comércio teme prejuízo

Representante dos lojistas diz que perdas na pandemia chegaram a 90% Por Carolina Ribeiro Modelos com máscaras na loja Colabora, no Jardim Icaraí. Foto: Gustavo Stephan Charbel Tauil. Foto: Divulgação Shoppings centers e centros comerciais de Niterói reabrem nesta quarta-feira (1º) com metade da capacidade de funcionamento e protocolos sanitários obrigatórios. As praças de alimentação continuam fechadas para evitar que haja contaminação entre as pessoas. As lojas de cuidar da medição de temperatura dos visitantes, tapetes sanitários nas entradas, totens com álcool em gel, marcação para filas no chão e agentes de desaglomeração. O horário de funcionamento será de meio dia às 20h. A notícia que anima o comércio também traz preocupação. O presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio (Sindilojas) de Niterói, Charbel Tauil Rodrigues, afirma que os comerciantes acumularam muitas perdas e precisam voltar à ativa, mas ainda têm muitas dúvidas. Ele calcula que o prejuízo de cem dias de comércio fechado por causa da pandemia de Covid-19 foi de 80% a 90%. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, Tauil afirma que faltou diálogo entre o poder público e os comerciantes, o que resultou em regras que podem até onerar o setor, como a necessidade de ter um funcionário para medir temperatura e organizar a entrada nas lojas. A Seguir: O comércio de Niterói, em sua maioria, ficou fechado por meses devido à pandemia do Covid-19 e ainda está operando com capacidade reduzida. Já é possível estimar o prejuízo para o setor no período? Charbel Tauil Rodrigues: O prejuízo para o comércio lojista em geral é da ordem de 80% a 90%. Irrecuperáveis, vale dizer. Apesar de Niterói ter boa arrecadação e parte da população ser de renda alta, muitas famílias da cidade dependem do funcionamento do comércio para viver e manter seus negócios. O que acha, como presidente de uma entidade representativa do setor, do tratamento dado ao comércio no plano de retomada da prefeitura? Em que pese ter havido iniciativas interessantes, como o Programa Empresa Cidadã, numa visão geral o tratamento ficou longe do ideal - principalmente devido à falta de diálogo, por parte do Poder Público municipal, com as entidades representativas do comércio e serviços. Caso tivesse havido uma prática efetiva de interlocução, certamente que teriam sido minorados os problemas, dificuldades e prejuízos dos empreendedores locais, em especial os de menor porte econômico. Em resumo: a prefeitura deveria procurar ouvir os comerciantes antes de anunciar medidas que nos dizem respeito. O exercício democrático do diálogo evita muita perda de energia e de esforços. Em estágios, o plano de retomada prevê restrições de funcionamento e regras rígidas de protocolos de seguranças para a reabertura. Qual o posicionamento do Sindilojas sobre as regras estipuladas? As regras estão totalmente de acordo com os protocolos nacionais, cabendo a todos cumpri-las para que vençamos o quanto antes esta pandemia. Os lojistas de Niterói estão todos muito conscientes a este respeito, e vêm se desdobrando para atender o mais corretamente possível às exigências. Porém, vemos dois grandes equívocos, os quais esperamos que sejam corrigidos o quanto antes. Em primeiro lugar, há a exigência absurda da aferição da temperatura corporal dos consumidores na entrada das lojas, utilizando-se de termômetros digitais, que além de caríssimos estão em falta no mercado, além de poucas marcas serem certificadas pela Anvisa. Para um hipermercado ou um shopping center, vá lá tal exigência, mas para uma pequena lojinha? Como manter um funcionário à porta só para isto, quando muitas vezes o estabelecimento tem só um ou dois trabalhadores? E o custo disto? Mais ainda: um comerciário não está qualificado para tomar a temperatura de alguém e, dependendo do caso, vetar o ingresso da pessoa no local. Isto seria tarefa da saúde pública, talvez, mas jamais algo a cargo do comerciante e dos seus colaboradores. Outro equívoco é o horário estipulado pela Prefeitura para o funcionamento do comércio. O ideal seria das 11h às 19h, mas faltou, mais uma vez, o cuidado de consultar previamente quem é do ramo. Esperamos que seja corrigido o mais rapidamente possível. Aliás, eis um grande exemplo da falta de interlocução a que me referi: na sexta-feira (26/6) é que a prefeitura veio a anunciar que no sábado - o dia seguinte! - o comércio de Niterói poderia funcionar das 8h às 20h. Isto avisado de véspera. Não há planejamento que dê conta! Agora que a cidade está avançando nos estágios e a maioria do comércio já pode reabrir, como tem sido o retorno dos clientes? O que o setor espera deste retorno? O retorno dos consumidores tem sido ainda tímido - como, aliás, já esperávamos. O público não está "indo ao ataque". Pelo contrário: o movimento tem transcorrido sem alvoroço nem aglomerações. Trata-se de um processo. É preciso dar tempo ao tempo, enquanto se demonstra segurança, com instalações higienizadas e todos os cuidados no combate à propagação do vírus. Aos poucos, e conforme os bons resultados epidemiológicos forem surgindo, iremos voltando ao normal. Ou ao "novo normal", como se diz. A população ainda tem medo da transmissão do vírus. Como o comércio pode mostrar aos clientes que as lojas estão seguras e prontas para recebê-los? Os estabelecimentos de comércio e de serviços de Niterói têm sido exemplares neste quesito. Todos estão se desdobrando para cumprir da melhor forma possível as exigências, uma vez que os empreendedores locais estão cientes de que a higienização e os bons cuidados com a saúde são, além de uma necessidade, também um diferencial de mercado. A previsão é que muitos comerciantes não suportem os prejuízos deste período e fechem as portas. Como a cidade terá que trabalhar para que os empresários se sintam confiantes novamente para investir em novos negócios? Temos toda uma caminhada pela frente. Neste sentido, quanto maior e melhor for o diálogo entre a prefeitura e as verdadeiras entidades empresariais de classe, mais rápida e segura será a retomada dos negócios em Niterói. O que espera do futuro e qual o aprendizado da pandemia? Creio que a atual pandemia deixou muito patente, para todos, a importância de a sociedade, como um todo, poder contar com dois braços - ambos públicos - muito fortes e eficientes: uma ótima rede de saúde pública, sem a qual toda e qualquer epidemia ou pandemia trará sempre o risco de desastre iminente, e uma sólida rede de educação pública, fundamental para que todos compreendam seu papel na construção de uma coletividade mais humana, mais justa e de permanente respeito à vida.

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