Soro do Vital Brazil poderá ser remédio contra Covid, diz presidente do instituto

Tratamento feito a partir do plasma de cavalos deve passar à fase de testes em humanos Por Carolina Ribeiro O Presidente do Instituto Vital Brazil, Adilson Stolet. Foto: Divulgação Desde maio, profissionais do Instituto Vital Brazil, em Niterói, estão pesquisando um soro para o tratamento de pacientes com Covid-19 a partir de plasma de cavalos. O resultado mostra que o plasma sanguíneo dos cavalos produz de 20 a 50 vezes mais anticorpos do que os humanos. Em entrevista ao A Seguir: Niterói, o presidente do IVB, Adilson Stolet, explica como o tratamento pode funcionar contra o vírus e quais são os próximos passos para aprovar o início dos testes clínicos em humanos. Nesta semana, o governador Wilson Witzel se encontrou com os cientistas do IVB para conhecer mais detalhes da produção do soro. Ele prometeu buscar recursos de mais R$ 2 milhões para a conclusão da pesquisa. Há 101 anos o Instituto Vital Brazil, em Niterói, pesquisa, forma e produz soros, vacinas e remédios. Criado com o intuito de trabalhar em favor da saúde pública, o IVB é uma empresa de ciência e tecnologia do Governo do Estado do Rio de Janeiro ligado à Secretaria de Estado de Saúde. É um dos quatro fornecedores de soros contra o veneno de animais peçonhentos para o Ministério da Saúde. A Seguir: Em maio, quando a pandemia estava no auge em Niterói e no restante do país, o Instituto Vital Brazil anunciou o início da pesquisa do soro com o plasma. Por que o IVB quis fazer a pesquisa? Adilson Stolet: Percebemos a possibilidade de ajudar as pessoas a partir de uma tecnologia que já utilizamos no Instituto Vital Brazil. O plasma já foi utilizado em outros estudos realizados pelo mundo. Por que, então, não usarmos o plasma de cavalos e trabalhar em um tratamento em larga escala, como fazemos com os outros soros que já produzimos? Dessa maneira, com a parceria entre o Instituto, a UFRJ e a Fiocruz, conseguimos alcançar excelentes resultados até aqui. Diversas pesquisas estão em andamento a fim de encontrar uma vacina que possa imunizar a população contra a Covid-19. Como o soro produzido pelo Instituto Vital Brazil se diferencia das demais pesquisas? Como funciona o soro? Na verdade, muitas pessoas confundem soro com vacina. O soro é um tratamento a ser aplicado quando se contrai a doença. Aqui no Instituto Vital Brazil, realizamos a produção de outros soros a partir do plasma de cavalos. Por exemplo, o soro antiofídico, feito a partir do sangue do cavalo, que produz agentes de defesa contra uma pequena dose de veneno de cobra inoculado em seu organismo. Seu sistema imunológico cria os anticorpos que neutralizam a ação do veneno. O plasma do animal passa por diversas etapas de produção e testes até virar o soro de fato. Também utilizamos essa tecnologia para produzir o soro contra a raiva, que é um vírus. O soro em que estamos trabalhando agora serve para tratar pessoas que contraíram a Covid-19, e utiliza essa mesma tecnologia, mas o cavalo é inoculado com a glicoproteína S recombinante da espícula (Spike) do vírus. O soro não irá imunizar a pessoa, mas poderá tratar e impedir que a doença evolua, evitando, assim, essa quantidade enorme de doentes graves e mortes que temos acompanhado pelo mundo inteiro. O Instituto Vital Brazil anunciou a patente do soro contra o Covid-19 desenvolvido a partir do plasma de cavalos. Como foi o trabalho de produção? E os resultados? O que, exatamente, foi patenteado? Começamos a preparar os cavalos em maio. Os animais passaram por seis inoculações, que aconteciam de acordo com a resposta e a sua produção de anticorpos. Observamos seus sintomas e reações durante todo o período. Para a inoculação, foi usada a proteína recombinante inteira, e não apenas fragmentos do vírus, o que proporcionou resultados animadores! Os plasmas de quatro dos cinco cavalos apresentaram anticorpos neutralizantes 20 a 50 vezes mais potentes contra o novo coronavírus do que os resultados divulgados por estudos referentes aos plasmas de pessoas que tiveram a doença. A patente é referente ao processo de produção do soro a partir da glicoproteína da espícula, com todos os domínios, a preparação do antígeno usado, a hiperimunização dos cavalos, a produção do plasma hiperimune, do concentrado de anticorpos específicos e do produto terminado, depois de ser purificado através da filtração esterilizante e da clarificação, seu envase e formulação final. Quais são os próximos passos para concretizar o tratamento? As próximas fases dependem de apresentarmos e validarmos tudo com os órgãos reguladores. Depois disso, como a tecnologia utilizada é conhecida e nossos soros não possuem qualquer histórico de reações adversas, esperamos conseguir ir direto para os próximos estudos clínicos, que vão acontecer em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Vamos testar em pacientes com diagnóstico confirmado da doença, mas que não estejam em terapia intensiva. Os testes visam à comparação entre quem recebeu e quem não recebeu o tratamento com nosso soro. O IVB tem excelência na produção de soros contra raiva e contra venenos de animais peçonhentos. Qual a importância dessa contribuição para a sociedade? O trabalho de laboratórios públicos como o nosso é sempre de grande valia para a sociedade como um todo. Somos uma empresa de ciência e tecnologia do Governo do Estado do Rio de Janeiro e queremos proporcionar melhorias na saúde, todo o nosso trabalho gira em torno desse objetivo. Os primeiros soros antiofídicos foram entregues para a população por Vital Brazil há quase 120 anos! Milhares de vidas são salvas anualmente por causa do que produzimos aqui. E, neste momento, participar de um projeto que pode ser a chance, nossa e do mundo, de ter um tratamento efetivo contra uma doença global, é maravilhoso! Há estudos em andamentos para a produção de mais soros para outras doenças? Quais os próximos planos para o IVB? Temos agora uma nova linha de pesquisa que envolve um animal diferente, a lhama. Ela produz um anticorpo mais simples que o humano, o que torna mais fácil separar um pequeno fragmento dele para copiar seu DNA e utilizar em tratamentos terapêuticos. É um projeto abrangente, que pode modernizar e tornar ainda mais eficiente o trabalho que realizamos aqui há tanto tempo. A ciência constantemente sofre ataques contra sua relevância e eficiência. Em sua opinião, a pandemia de Covid-19 pode mudar este cenário e garantir mais apoio, também financeiro, à área da ciência? Como isto pode beneficiar a população? Acredito que sim. Há tempos que o mundo inteiro não vivenciava um problema desconhecido, que colocasse os cientistas e pesquisadores tão em foco como agora. Hoje, para que possamos voltar a viver com a normalidade com que estávamos acostumados, dependemos da ciência, da sua assertividade. E, quanto mais trabalhamos, mais é possível descobrir, sobre esse e diversos outros assuntos que merecem nossa atenção. Cada descoberta que é feita é uma nova chance de acrescentarmos algo mais ao nosso repertório sobre ciência, saúde, natureza, enfim. E esse é o grande benefício para todos nós: o conhecimento que adquirimos com cada nova descoberta que fazemos. Porque é esse conhecimento que vai gerar as soluções de que precisamos para uma vida sempre melhor.

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