Um recluso na reclusão

Dono da Taberna do Darwin, que se refugiou há dez anos no mato, diz que só sente falta da conversa dos amigos Por Luiz Claudio Latgé Marcos Mendes Sabino, o Soca Soca para quem frequenta a praia com certa distância e respeito é o momento que a onda te arrasta pro fundo. Mas para quem viveu a vida toda em Itacoatiara, Soca é Marcos Mendes Sabino, o irmão de Neno, Beco, Leandro e Luciana. Os Sabinos. Durante muitos anos, pode ser visto empilhando pratos pela cidade, no Centro, em Icaraí. Foi dono de lanchonete, restaurante, cafés. Inaugurou o café do Teatro Municipal. Mas cansou de trabalhar tanto e, depois de uma viagem que durou um ano inteiro pela Polinésia francesa, resolveu se radicar no parque florestal da Serra da Tiririca, na Rua Pau Brasil, Caminho do Darwin, Engenho do Mato. Numa “cabana”, cercada de mata e muitos pássaros. É claro que não parece que estamos falando de uma mesma pessoa, o dono de restaurante estressado e o ermitão da floresta. Soca foi dando um jeito de levar para dentro de casa tudo o que gostava. A começar pelo fogão. A música. E os amigos. Começou assim, até que um belo dia botou a tabuleta na porta, Taberna do Darwin. Com a ajuda da filha, Jéssica, diplomada no Cordon Bleu, o restaurante começou a atrair visitantes nos fins de semana. E foi parar no New York Times, como uma das atrações imperdíveis do Rio de Janeiro. Depois, ainda fez dois chalés e passou a receber hóspedes. Faz dez anos que Soca escolheu este caminho. Quer dizer, escolheu não ter que pegar nenhum caminho de casa para o trabalho, como faz metade da população desta cidade, enfiada nas barcas ou na ponte. Trabalha em casa. Em tempos de pandemia, quando tudo está fechado e ninguém tem para onde ir, pode ser pertinente ouvir o depoimento de alguém que escolheu o recolhimento. No material que promove a pousada, uma das qualidades que ele escolheu vender é, justamente, “isolamento social”. A Seguir: Como está a vida na Taberna do Darwin? Marcos Mendes Sabino: Tá tudo parado, né? Ninguém está saindo. E aqui não tem ninguém à volta, não tem movimento. De vez em quando, a gente precisa sair para fazer uma compra. Só isso, fico em casa, que é o melhor lugar para ficar. O lugar que você escolheu, né? Tem gente que diz que eu me antecipei… Que fiz antes o que todo mundo quer fazer agora… Como foi a sua escolha? Eu sempre trabalhei muito, tive loja em shopping, em Icaraí, restaurante de comida a quilo... Fiz o café do Teatro Municipal. Sempre com muito trabalho, muita correria. Parei um tempo. Quando voltei de viagem, já sabia que não queria mais essa vida. E vim para cá. Estranhou? Eu queria muito isto. Acho que todo mundo quer. A gente trabalha, enfrenta trânsito, se vira. Mas fica pensando numa casinha no campo. Eu cheguei aqui e fiquei pensando: e agora? O que eu vou fazer aqui? Hoje o restaurante me ocupa, fiz os chalés, as pessoas vêm, a gente conversa… Às vezes eu saio. Vou ao cinema, ao teatro. Para ir para o Rio tenho que dormir fora. E tudo que eu quero é voltar para casa logo… Se acostumou com o silêncio… Eu não sei como as pessoas saem para trabalhar no Rio, se metem num carro, na barca, horas no trânsito… Eu pensei nisso. Eu quero trabalhar em casa. E foi acontecendo… Então essa quarentena não te incomoda tanto, já está acostumado com a reclusão? Não, eu sinto falta da conversa, do bate-papo, dos amigos… Mas, às vezes, acho que isso aqui está ficando pesado demais, dá muito trabalho. Minha filha se mudou para a Suíça e estou sozinho com minha mulher. De vez em quando, até penso em procurar um lugar mais tranquilo… (Ri. Ri muito). Fui até ver, em Florianópolis. Minha família é de lá, andei vendo, tem uns lugares bonitos, mata, cachoeira. Um lugar chamado Bonifácio. E tem praia perto. Lugar lindo. Mas fiquei com medo, não tem nada em volta… pensei: e se eu tenho um piripaque? Vou sair daqui, para quê? Depois vou dizer que era feliz e não sabia… Bem, pelo visto, dá para aguentar a quarentena? Que passe logo. A conversa faz falta…

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