Volta às aulas: saiba o que dizem entidades e autoridades sobre retorno na pandemia

Bares já abriram, mas escolas ainda não: entenda o que especialistas pensam disso O temor de contágio pelo coronavírus está por trás da polêmica sobre a volta às aulas “O Brasil vai pagar um preço muito alto por escolher abrir bar antes de escolas”. A declaração da presidente executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, repercutiu, incomodou, foi criticada e aplaudida. Falar em volta às aulas em meio à pandemia de Covid-19 incomoda muita gente e divide opiniões. O coronavírus ainda mata centenas de pessoas por dia no país. O risco de contágio leva alunos, pais, professores e especialistas a temerem o retorno aos colégios. Mas há quem defenda a volta logo porque o ensino remoto não garante aprendizagem, crianças em casa ficam mais sujeitas a maus tratos e deixam de ter acesso à merenda escolar, além de problemas psicológicos causados pelo isolamento. Conheça algumas opiniões: Todos Pela Educação A presidente da ONG de maior prestígio no setor de educação hoje, Priscila Cruz, diz que enxerga um futuro triste para um país há quase seis meses com escolas fechadas e sem previsão de abertura em breve. "Dá para afirmar com certeza que a desigualdade e a evasão vão aumentar, a aprendizagem vai cair. E a consequência no médio e longo prazo para o país é brutal", disse Priscila Cruz ao Estadão. Mestre em Administração Pública por Harvard, Priscila afirmou que gostaria de ver governadores e prefeitos obcecados por educação. "Queria que eles estivessem perdendo o sono porque as escolas estão fechadas." Em vez disso, avalia ela, temendo um mau resultado nas eleições de novembro, muitos têm se guiado por pesquisas em que a maioria da população se diz contrária à retomada. "A decisão de deixar a abertura para o ano que vem é a pior que pode existir. O prefeito pensa: é muito complexo, tem muita opinião. E empurra o problema com a barriga". Só com vacina Já consulta encomendada pelo O Globo ao Ibope mostrou que 72% dos brasileiros acham que os alunos só devem voltar a ter aulas presenciais quando houver uma vacina disponível contra o coronavírus. A pesquisa foi feita entre 21 e 31 de agosto, pela internet. Esta é também a opinião de uma corrente de especialistas e educadores, mas outros não concordam. Estes, inclusive, usam o argumento de que praias e bares já estão lotados, mas as escolas permanecem fechadas. Pandemia do medo Para a especialista em Educação Marta Nídia Varella Gomes Maia, graduada em pedagogia pela UFF, doutora em Educação pela PUC e professora da Faculdade de Educação da UFFA, a volta às aulas presenciais em meio à pandemia, com todos os protocolos sanitários, além de ampliar o risco de contágio, vai inaugurar a pedagogia do medo. Ela é radicalmente contra a retomada das aulas presenciais antes de haver uma vacina contra a Covid. E também é crítica do ensino remoto, “que não significa aprendizagem”, e da forma como o debate está sendo feito. “Nada se sobrepõe à necessidade de cuidarmos da vida, de conter o contágio da Covid e evitar mortes”, disse em entrevista ao A Seguir: Niterói. Imunidade de rebanho Também Simone Martins Rembold, professora da UFF e especialista em enfermagem médico-cirúrgica e controle de infecção, disse ao A Seguir: Niterói que só haverá segurança para uma flexibilização do isolamento social quando mais de 50% da população tiver imunidade para a doença, “pois assim a transmissão é freada”. Já passou da hora Mas há especialistas que pensam o contrário. Pércio de Souza, presidente do Instituto Estáter, acredita que a evolução da pandemia mostra que há espaço para reabrir as escolas, sem riscos relevantes. “As escolas fechadas têm consequências graves para as classes vulneráveis: submetem as crianças à violência doméstica, pioram a desnutrição e incentivam a marginalização dos adolescentes desocupados, além de ampliar o já enorme abismo social”, disse ele ao Estadão. E completou: “Conscientizar a população, preparar a infraestrutura e o ambiente escolar e trazer os alunos de volta às aulas são medidas necessárias e urgentes”. Responsabilidade dos pais Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, acredita que as famílias não podem ser responsabilizadas pela escolha de retomada dos alunos às aulas. No fim de julho, o Conselho Nacional de Educação recomendou que o controle de frequência dos estudantes seja flexibilizado e que os pais possam escolher sobre o retorno dos filhos às escolas. "A gente não pode transferir essa responsabilidade para a família. É um crime do Estado fazer isso. Nós cometemos esse mesmo erro no começo da pandemia. Eu, como médico pneumologista, alertava que não dá para transferir para a família”, alertou ele em entrevista ao Uol. Escolas privadas O sindicato das escolas particulares do Estado do Rio (Sinepe) é a favor do retorno às aulas presenciais. Inclusive defende a volta das privadas antes das públicas, já que as particulares são unidades autônomas, que têm mais condições administrativas e econômicas de gerenciarem esse retorno, adequando as unidades às exigências sanitárias. O Sinepe argumenta que muitos pais já tiveram de voltar a trabalhar e não têm com quem deixar os filhos, sendo que as escolas seriam o local mais adequado. Professores No caso de Niterói, tanto sindicatos e associações de professores da rede pública como das escolas privadas já se declararam contrários à volta às aulas presenciais antes da vacina. Acham que é um risco grande para alunos e professores, que inclusive poderão não só se contaminar mas também levar o vírus para suas famílias em casa. Também afirmam que a direção das escolas não deveria assumir o risco de abrir sem uma segurança maior, como um remédio eficaz ou a vacina contra o coronavírus, porque serão responsabilizados por isso. Economia também sofre Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é dos países do mundo com mais tempo sem aulas presenciais nos colégios e as escolas fechadas poderão afetar a economia mundial. O documento divulgado no começo de setembro afirma que os efeitos econômicos da paralisação na educação por causa da Covid serão sentidos por décadas. Autoridades Decreto do governador Wilson Witzel, afastado do cargo, autorizou a volta às aulas em todo o Estado do Rio para alunos do Ensino Médio a partir do dia 14 de setembro. Nesta quinta-feira (10), porém, a Justiça do Trabalho suspendeu a lei, proibindo o retorno a pedido de sindicatos de professores. O decreto do governador previa uma escala de retorno, sendo que os últimos a voltarem seriam os alunos da Educação Infantil. Já o Prefeito Rodrigo Neves estendeu o isolamento social em Niterói até o dia 30 de setembro. Até lá, portanto, as escolas de Niterói não reabrem. E não é possível prever se no fim de setembro o Prefeito autorizará ou não a volta para outubro porque tudo dependerá da evolução da pandemia na cidade. Que está estável, mas também não está melhorando.

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